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segunda-feira, 4 de junho de 2012

MANUALMENTE

Há dias em que já acordo assim afagado,

com meu corpo tomado dos pés à cabeça 
por mãos que me apalpam de passagem 
num gozo extremo de alma sedenta: 
são tantas mãos nunca santas, e como
que afoitas me inflamam ao tato, de fato,
que me tocam a lida, em bulas e cores,
que apressam compressas com vigor,
que arredam ziquiziras, banzos e tédios,
que me esfregam sem pena na pele um paliativo, 
que me ungem, benzem quebrantos, mandingas
que me curam das dores e de outras mazelas
que se encostam na vida, de repente.
E assim vão amassando a impermanência, 
antes mesmo que a louca decida levar seus anéis, 
lavar as mãos e transitar em julgado 
sua última sentença!


quinta-feira, 31 de maio de 2012

NA HORA DO BANZO


Da minha Várzea parti 
um dia já bem distante 
p’ra voltar, quando não sei 
parti, mas nunca de lá saí,
pois ela mora em meu peito
sinto uma saudade tremenda
dessa que castiga a gente.
Sou canário fora do chão,
galo longe da campina,
quem te viu, quem te vê
assim tão bem-te-vizinho solitário,
pintassilgo, pássaro engaiolado dentro
do alçapão da minha cabeça feita,
que não se contenta com o alpiste
que lhe trazem ali, à mão.
Estou moleque entristecido,
esquisito que só vendo,
na hora em que a cuca pega
solta os bichos num cri-cri de grilos,
longe da sua terra querida,
que se dana a pensar, em puro banzo,
fica de cá, só cubando com calor
a vida que o leva acolá, consentido,
doido de jogar pedra na lua, e como
só pra ver se enramar seus pés de jerimuns.
E, de tal sorte, destino ou sina
de se encontrar noutras searas,
afastado a tantas léguas
da sua Várzea amada,
do seu Vapor tão vital,
embora entretido noutra lida,
sente o coração ardente afoito a bater,
a crepitar nessa chama interior,
certo de que o amor não fica longe!

quarta-feira, 30 de maio de 2012

PLACEBO

Altas horas dentro da noite fria, 
meus olhos secam os teus
nas fotografias amarelas que vasculho.
O silêncio vara a penumbra
e ainda sinto teu cheiro no quarto
a me furtar o sono e os sonhos, 
sem ter prazer nem prece 
que se eleve a Deus. 
Fatigado por tua procura 
minha alma busca em vão
por um lenitivo ao peito aflito. 
Leio, releio, rabisco, invento poemas:
rasgo o coração já partido 
que se desfaz num grito seco
que ecoa fora do que estava escrito, 
mas tudo isso funciona como placebo. 
Não morro mais de dores, bebo do amor, 
brindo ao amor-próprio...
a poesia me embriaga, amortece a dor 
e logo cerro os olhos num sono de chumbo!

terça-feira, 29 de maio de 2012

PARALELEPÍPEDOS

Ainda não gargalhei todos os meus 
risos,
Ainda não gritei todos os meus 
uivos,
nem tranquei a última cancela 
do pranto.
Ontem lavei a calçada da igreja 
de São Pedro apóstolo 
com esmero, 
com água de cacimba do rio Joca.
Esculpo ruas de pedras, 
becos,
vãos de velhos paralelepípedos 
e amanhãs paridos dos grandes lajedos,
trago-os no peito além do eco
das quatro bocas, 
auroras vestidas de esperança 
nova.
Ainda não perdi o encanto e a prenda,
sou varzeano e não entrego 
os pontos,
ainda não abri mão do meu último 
sorriso,
mas bem sei que um dia o coração 
me leva.

domingo, 27 de maio de 2012

DA VIDA, SIM! PORQUÊ NÃO?


De vassoura em punho, 
de sol a sol, só pra variar, 
Dalila recomeçava o dia.
Lavava os pratos na pia,
enxugava o suor do rosto 
e a lágrima que escorria no canto da boca
em face do pranto das dores antigas 
passava, cozia, torcia, se contorcia pra dar conta do recado,
Esquecendo de si mesma, de se recompor.
ela muito bem sabia cuidar dos outros
ela rondava e rondava a sala-de-estar sem estar lá.
Varria os corredores, espanava a poeira
dos móveis, com suas mãos calejadas
esfregava o grude e as nódoas alheias,
tirava as manchas dos panos das trouxas
e quase sempre estava lá esvoaçante
dependurada junto com as roupas limpas, 
coração no varal, alma esticada no curtume,
esperando secar sob o anil azul do céu de sol a pino.
Ó, céus! mais parecia escrava a vida dessa coitada,
até que um dia resolveu fazer diferente:
Acordou mais tarde, se pintou resolvida...
levantou os seios e o corpete, se enxergou bonita
de frente ao espelho sorriu, fez caretas. Despiu-se.
Cansada de ser maria-vai-com-as-outras,
ela se dispôs a mudar de vida: 
cansou de comer as sobras do que já estva na mesa,
arregaçou as mangas, arrebitou as nádegas
e foi pra lida rodar a bolsinha na feira 'Daspu'...
E chega desse negócio de assim ou assado, 
bem ou mal passado, no ponto da esquina...
A gente nasce pra ser o que quer, guarde suas penas! 
Se ela acordou a tempo de ser o que lhe apraz, 
simplesmente não se importa com o pensar alheio.
Hoje ela acorda vestida em lantejoulas, satisfeita 
com a lida que a leva, rezando pra que logo escureça 
e a rua acenda seus néons e estrelas
só pra ela subir no salto e brilhar, se achando rainha do pedaço
nos braços de quem melhor puder lhe pagar 
amor.

sábado, 26 de maio de 2012

O DONO DA POESIA


E a poesia, quando vem, estoura
sai assim feito música de dentro
é que passa o dia inteiro zoando.
é que ela já estava me ninando há dias
ou quebra o pote da alegria, de repente,
antes mesmo de ganhar o mundo.
A poesia, quando vem à cabeça,
já está feita no nicho do peito,
quer sair afoita, apressadinha
só para ter seu papel na lida, 
sem se furtar às cores animadas
nem às tintas que o sol inventa
ao desenhar o presente de dádivas. 
Tem horas em que o poema cochila,
descansa, se resguarda num escaninho
da alma, mas acaba por destravar as celas, 
um pouco atrasado, mas sempre chega indomável
e dita a palavra de esteio, senha consentida.
E assim, a tarde se deita mais bonita, 
se banha de lua e de prata, contente se encanta
ao relento da noite que descamba em estrelas.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

LAÇOS DA TERRA

Quanta saudade se sente 
Quando se está longe de Várzea 
E se procura no peito uma certeza qualquer... 
Dá uma vontade danada de ir correndo pra lá, 
Na inspiração de uma esperança nova 
Ou na insônia que vier... 
Que 'bixiguenta' essa sina 
Que nos empurra pra longe, 
Deixando um punhado de coisas
Pra solidão se entreter... 
Mescla de retiros, ariscos
De 'Quilaras' e Marreiros, 
Que marejam o olhar
De quem fica longe do Vapor, 
Estou feito água salobra
Das cacimbas do rio Joca. 
Mas continuo a mirar minhas lembranças a pensar... 
Dá bem-estar só de querer andar pelo sítio de seu Tida, 
Selar o cavalo manso, trotear pelas estradas de chão, 
Até suar a camisa, arregaçar as mangas e se deliciar 
Com um prato de coalhada adoçada com mel de abelhas, 
Sentado lá no alpendre, deixando-se beijar
Pelo sol da tarde amena. 
Minha vida, entoa qualquer coisa
Que tenha um cheiro de Várzea, 
Pura, que leva a gente pra junto 
dos seus bem-me-queres, 
À espera de ouvir uma cantiga de sabiá,
Um bem-te-vizinho que seja. 
Distância mesquinha, ingrata,
Que aumenta a dor da gente, 
Ando e acabo por voar rasante
Feito um canário de chão 
Mirando o laço do passarinheiro
Que prende o coração indefeso 
De poder se libertar da cela do peito. 
É demais a saudade que se sente, essa peleja 
Quase insuportável de ficar longe da nossa terra. 
Mas, quando não há outra saída nem jeito, 
A lágrima cai, encharca a razão,
Dói, corrói por dentro, com a 'mulinga'. 
E o remédio é deixar-se ir, na certeza
De 'desemcabrestar' a poesia que brota 
Fazendo o tempo escorrer,
Como o açude do Calango cheio a sangrar 
Como quem se esbalda num banho
De cheiros, cheio de saudades... 
Minha Várzea, até um dia,
Vida dura, lida pura! 
Quanta saudade
Do meu lugar!